Por dentro da linguagem do autismo

Publicado em 16 de julho de 2018

Psicóloga elenca as principais características do transtorno do espectro autista, cada vez mais comentado nos dias de hoje.
Por Dra. Gislene Jardim

O transtorno do espectro autista é um termo que deriva do quadro clínico “autismo”, descrito pela primeira vez pelo psiquiatra austríaco Leo Kanner (1894-1981), e que hoje compõe um grupo de sinais de risco da primeira infância que carecem de orientação e abordagem efetiva de profissionais de saúde e educação.

 

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas, o transtorno do espectro autista atinge 80 milhões de pessoas no mundo – 2 milhões delas no Brasil. Assim, ocorre em uma a cada 70 crianças, sendo maior a incidência no sexo masculino, em uma proporção de quatro meninos para uma menina.

E quais são os sinais em bebês e crianças pequenas que pedem atenção dos pais e educadores? O desenvolvimento da linguagem na criança, bem como o uso dos códigos de comunicação que utiliza para se relacionar com os outros é o principal eixo investigativo, antes mesmo de ela começar a falar.

Um primeiro sinal importante a ser acompanhado refere-se ao modo como o bebê olha e se dirige ao seu cuidador e como ele responde ao outro no momento da amamentação, da troca de fraldas ou em outras estimulações. A criança que evita o olhar, que não responde às cócegas que seus pais fazem esperando risos, ou que não se vira quando é chamada já está sinalizando uma possível dificuldade de criar e manter laços de linguagem com os outros.

Mais adiante, quando a criança poderia falar e se comunicar, e ainda não o faz, ou então só fala partes de palavras, repete frases ou as formula de modo incompreensível, também aqui entendemos que há alguma dificuldade em estabelecer um laço com o outro por meio da linguagem.

Do ponto de vista da apresentação corporal, essa criança também mostrará particularidades, tais como movimentos repetitivos das mãos, deslizando uma mão sobre a outra, ou produzindo balanceios com o corpo. Não será raro que tais crianças criem um vínculo com um objeto escolhido, repetindo com este sempre um ritual. Também é comum que se mostrem presas à rotina, reagindo com choro ou protesto quando desafiadas a algo diferente.

Na relação com o outro, muitas vezes as crianças parecem se relacionar com partes do corpo do outro; é comum que essa criança tome a mão ou o braço de uma pessoa de modo a facilitar que ela “pegue” um objeto que está distante de seu alcance. A ausência de palavras intermediando essa relação, ou a presença de sons e ruídos que não designam a ação em si, também confirmam uma dificuldade em estabelecer com o outro uma relação de linguagem. Por outro lado, a demanda do outro, de alguma maneira, as repele.

Nos exemplos citados, vimos quanto o modo de estruturação da linguagem se faz sinal central e definitivo nos quadros de autismo. As diferenças entre as manifestações nessas crianças devem ser compreendidas como um espectro, de maior ou menor grau de complexidade.

Em relação à fala, por exemplo, podemos encontrar desde crianças tomadas pelo mutismo até aquelas com discurso estruturado, porém monotemático, tal como na Síndrome de Asperger. Esta é uma condição considerada autismo de alto rendimento, uma vez que a fala está presente, mas de modo estereotipado, produzindo ilhas de conhecimento monotemáticos como a geografia, a matemática etc.

Por ser o transtorno do espectro autista um quadro com sinais de risco que se manifestam precocemente, recomenda-se também a intervenção precoce, de modo a amenizar ou até a reverter quadros que se mantenham em dúvida diagnóstica.

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Texto produzido pela Dra. Gislene Jardim para o site SAÚDE.
Link original: https://saude.abril.com.br/blog/experts-na-infancia/por-dentro-da-linguagem-do-autismo/

A Dra. Gislene Jardim é psicanalista, mestre e doutora em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do Departamento Científico de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Publicado em 24/11/2017.

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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