Teatro auxilia portadores de TEA no convívio em sociedade

Publicado em 27 de outubro de 2016

Profissionais e alunos se dedicam à arte e resultado é emocionante.

Dom Quixote de La Mancha

Portadores de Transtorno do Espectro Autista (TEA) têm no contato com o próximo um grande obstáculo – capacidade que, na arte, é fundamento essencial.

Realidades tão antagônicas parecem excludentes, mas para os que buscam superação, a dificuldade pode ser o início de uma nova trajetória.

Pioneiro no trabalho educacional voltado a pessoas portadoras de necessidades especiais, o Instituto Ser – que nesse ano estreia uma superprodução do clássico literário de Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha – trabalha o fazer artístico como auxílio no desenvolvimento da concentração, habilidade motora, fala, memória e – acima de tudo – reconexão com o próximo.

O musical, a ser apresentado nos dias 26 e 27 de outubro, foi adaptado com base na transdisciplinaridade: metodologia pedagógica que utiliza a arte como expressão e manifestação das competências – e levará ao palco 100 pessoas, entre bailarinos profissionais, atores e músicos.

No elenco, 60 artistas são portadores de TEA.

As plasticidades cênica e vocal, trabalhadas de forma a ampliar as possibilidades de sentido e significado, resultaram em uma apresentação emocionante, na qual  segregar portadores e não portadores de autismo parece impossível.

Espetáculo - Don Quixote de La Mancha

Processo preparatório

Trabalhar com arte significa preparar os envolvidos a partir de seu nível de sensibilidade mais intuitivo. Como desfecho do processo criativo, Dom Quixote de La Mancha é o resultado de um preparo minucioso para o convívio de cada educando consigo e, por consequência, com a sociedade.

Além do trabalho de expressão, profissionais e alunos realizaram uma pesquisa musical detalhada, visando criar um rico repertório. Dentre os ritmos estão canções folclóricas, espanholas e flamencas.

Enquadrado na categoria musical, Dom Quixote apresenta canto na maior parte do tempo.

Dessa forma, educandos tiveram acesso a uma aula especial ministrada pela preparadora  vocal Caroline Blumer e ao acompanhamento por dois músicos, um violinista e um pianista.

Para a composição de personagens, instrumentos como coquinho, pratos e metalofone foram utilizados, permitindo um trabalho com movimentação contínua.

“Para o autista a percepção é muito complexa e trabalhar essa habilidade com eles em cena é muito importantes para o seu desenvolvimento”, disse Alexandre Castelli, professor de artes cênicas.

Há 10 anos no Instituto Ser, o professor se diz grato ao trabalho que desenvolve e ressalva que aprendeu a adaptar os espetáculos. “Desaprendi para reaprender uma nova linguagem e vivência de arte, codificar uma obra e fazer que seja compreendida, é um desafio”, comenta.

A inclusão além do perceptível

A espera é também grande dificuldade de portadores de TEA. A fim de trabalhar esse quesito, os preparadores determinaram que em Dom Quixote todos os participantes permanecerão em cena por todo o espetáculo. Através dessa aprendizagem, os atores desenvolveram  mais atenção e concentração – capacidades indispensáveis à percepção da importância individual para além do palco.

As particularidades de cada um também foram levadas em consideração por Cláudia Dubard, diretora do Instituto Ser, que conta que os gestos involuntários desenvolvidos por alguns portadores de autismo foram utilizados na composição dos personagens.

“Alguns autistas apresentam gestos e movimentos involuntários. Nossos profissionais tiveram a ideia de incorporar esses movimentos em personagens da trama abordada. Em anos anteriores, após o término da produção, percebemos que aquele movimento diminuiu significativamente e, em alguns casos, sumiu. É como se perdesse sentido, já que – na percepção deles – era parte do personagem.”, explica.

Segundo Cláudia, a inclusão desses gestos e movimentos na composição de personagens ajudou, inclusive, na evolução de quadros característicos do TEA.

Confira o espetáculo Robin Hood, apresentado no ano passado:

O Espetáculo

No quarto centenário de morte de Miguel de Cervantes lembrado em 23 de abril desse ano, a adaptação musical inclusiva Dom Quixote narra a história de um fidalgo sonhador que resolve ser um cavaleiro andante e se transforma no famoso “Dom Quixote de La Mancha”.

O protagonista de personalidade leve e positiva possui o dom de sintonizar vida, sonho e realidade: característica comum aos portadores de TEA.

O enredo foi o escolhido de 2016 por expor valores sociais diversos e relevantes.

A idealização do espetáculo prepara os envolvidos, entre crianças, jovens e adultos, a mostrarem e desenvolverem suas habilidades por meio da dança, música e teatro. Segundo Cláudia, “A superprodução nos envolve e leva a refletir sobre a real arte de incluir”, diz Cláudia.

Cervantes – romancista e dramaturgo espanhol – é considerado um dos maiores escritores do mundo. Sua obra Dom Quixote, clássico da literatura ocidental, já foi citada por diversas vezes como o primeiro romance moderno.

Educandos como parte integrante do processo de evolução e preparação do espetáculo

A partir da criação de personagens, alunos do Instituto Ser participaram de todo o processo de preparação cênica: elementos de encenação, texto, cenário, figurino, trilha sonora e interpretação.

O envolvimento dos educandos foi contemplado também com o conhecimento de cenografia e adereços do artista plástico campineiro Jucan Cândido e do famoso cenógrafo Jésus Sêda, além da participação de Emerson Mosca nos figurinos.

“Para a inclusão, mostramos o melhor de nossas ações e a interação com elas nos mostram resultados extraordinários”, conclui Cláudia

Cenografia e adereços

Para compor os adereços e as peças cênicas, o cenógrafo Jésus Sêda, apostou no polietileno, material utilizado em embalagens também conhecido como espuma-pack e ideal para construções imensas e leves. Remetendo à época pré-renascentista, os adereços foram criados em tons pastel.

Os cavalos, ícones do musical, foram modelados em arame de alumínio e também forrados com TNT. As cabeças de Dom Quixote ganharam formato em material EVA, pelúcia e TNT, encaixados como máscaras nas cabeças dos atores, que se revezam na atuação do personagem.

Jésus explica que a utilização desses materiais é muito importante, já que não pesam e favorecem um bom desempenho do ator durante sua movimentação.

“Trabalho no Instituto Ser há mais de 20 anos e aqui se aprende a abordagem de qualquer tema e são gerações de educandos que nos marcam para a vida toda”, disse.

Responsável pela cenografia, o artista plástico Jucan Cândido, explica que o espaço cênico é composto por painéis em tom grafite que caracterizam janelões de presídio vazado por onde se obtém uma luz cênica de vitral.

“Seis dos painéis que compõe o cenário foram grafitados pelos próprios alunos”, disse.

Sobre o Instituto Ser

O Instituto SER atua no tratamento transdisciplinar e escolarização de crianças, jovens e adultos portadores de necessidades especiais.

Fundada em 1989, a organização oferece suporte e tratamento a pessoas com autismo, hiperatividade, transtornos de personalidade ou comportamento, transtornos de humor e aprendizagem, déficit de atenção, transtornos das habilidades motoras, deficiências intelectuais ou psicomotores, entre outros.

Além de proporcionar acesso a conteúdos norteados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, a clínica escola tem o objetivo promover a inclusão social por meio do desenvolvimento de atividades como artes, oficinas de artesanato, estudos do meio, teatro, aula de música, computação e esportes.

O Instituto também realiza um trabalho de estimulação para crianças de 0 a 4 anos e orientação educacional direcionada a pacientes na faixa etária de 5 a 40 anos. O conteúdo pedagógico abrange o ensino fundamental e ensino médio, trabalhados em parceria com o CEEJA (Centro Estadual de educação de Jovens e Adultos).

Psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, educadores físicos, fisioterapeutas e pedagogos buscam desenvolver diariamente habilidades de comunicação e socialização, buscando, por meio da continuidade do aprendizado, inserir seus alunos no mercado de trabalho a vida em sociedade.

Acesse o programa do espetáculo:
http://www.institutoser.com.br/media/1958/quixote-de-la-mancha-programa.pdf

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